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Incoerência política: quando o discurso sobre inclusão colide com a prática no trânsito

No dia 10 de dezembro de 2025, a Assembleia Legislativa da Bahia instalou a Frente Parlamentar em Defesa da Pessoa com Deficiência, iniciativa criada e articulada pela deputada Cláudia Oliveira, que foi eleita por unanimidade para presidir o colegiado.

Na ocasião, a parlamentar afirmou que a Frente representaria “um passo determinante para garantir dignidade, visibilidade e respeito às pessoas com deficiência”, destacando que o trabalho seria permanente e construído junto àqueles que vivem essa realidade.

Entretanto, apenas cinco dias após a criação da Frente, a mesma deputada apresentou uma indicação ao governador Jerônimo Rodrigues solicitando a construção de uma pista para a prática do chamado “grau”, no município de Eunápolis — manobras com motocicletas amplamente conhecidas por ocorrerem, majoritariamente, em vias públicas e associadas a alto risco de acidentes.

Na justificativa, a deputada argumenta que a proposta buscaria oferecer um espaço “seguro e regulamentado”, com o objetivo de reduzir riscos no trânsito, incentivar o lazer e promover inclusão. O discurso, no entanto, entra em choque direto com os efeitos concretos dessa prática no cotidiano urbano.

O ponto central da contradição

O “grau” não é uma manifestação cultural inofensiva nem um esporte marginalizado em busca de reconhecimento institucional. Trata-se de uma infração gravíssima, frequentemente associada a crimes de perigo à vida, responsável por acidentes, mutilações permanentes e mortes, sobretudo entre jovens.

Cada ocorrência desse tipo alimenta exatamente o problema que a Frente Parlamentar diz combater: o aumento de pessoas com deficiência física, muitas vezes resultado de condutas previsíveis, evitáveis e já tipificadas pelo Código de Trânsito Brasileiro.

O custo social e coletivo

Há ainda um aspecto frequentemente ignorado no debate: o impacto financeiro e estrutural sobre o sistema público de saúde. As consequências dos acidentes causados por essas práticas recaem sobre:

  • hospitais públicos já sobrecarregados;
  • cirurgias de alta complexidade;
  • longos processos de reabilitação;
  • benefícios previdenciários custeados por toda a sociedade.

Defender ou normalizar esse tipo de prática significa, na prática, transferir o risco individual irresponsável para o erário público.

Coerência é parte da responsabilidade pública

Criar uma Frente Parlamentar em Defesa da Pessoa com Deficiência exige mais do que simbolismo institucional. Exige coerência política, compromisso com a prevenção e responsabilidade no trânsito. Não basta atuar apenas após o dano consumado.

Quando o poder público tolera ou legitima práticas sabidamente perigosas, a política deixa de ser instrumento de proteção da vida e passa a operar como retórica vazia — primeiro aceita o risco, depois lamenta o resultado.

Não existe defesa real das pessoas com deficiência sem políticas firmes de prevenção, educação no trânsito e valorização da vida. Todo o resto é discurso que, direta ou indiretamente, contribui para um ciclo de violência, sofrimento familiar e desperdício de recursos públicos.

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